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Construir autonomia também é dever de casa

9 de abril de 2026

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O desenvolvimento da autonomia na infância constitui um dos eixos centrais da educação contemporânea. Essa competência se constrói por meio das experiências cotidianas da criança em seus diferentes contextos de convivência. Cultivar essa autonomia não se relaciona à independência precoce, mas à atribuição de responsabilidades compatíveis com a idade da criança, o que se manifesta, sobretudo, na participação em atividades da vida diária.

Mesmo gestos aparentemente simples possuem grande relevância nesse processo. Um bebê que segura a colher, ainda que derrame parte da comida, está exercitando coordenação motora, percepção corporal e iniciativa. Da mesma forma, uma criança de dois anos que participa da organização dos brinquedos começa a compreender sua inserção em um grupo e o valor da colaboração. Aos três anos, a possibilidade de escolher entre duas roupas já representa um primeiro exercício de tomada de decisão. À medida que a criança cresce, essas experiências se ampliam e se tornam mais complexas.

Essas atividades favorecem o desenvolvimento de responsabilidade e pertencimento. Crianças que participam ativamente de suas rotinas tendem a demonstrar maior iniciativa diante de desafios, mais segurança para experimentar novas tarefas e maior tolerância a frustrações. Isso porque a autonomia não se desenvolve por meio de instruções verbais, mas pela repetição de experiências concretas que permitem à criança agir, errar, ajustar e tentar novamente.

A família desempenha um papel decisivo nesse processo, já que o cotidiano doméstico cria espaço para que a criança exerça pequenas responsabilidades e desenvolva sua capacidade de ação. Na cultura italiana, por exemplo, é comum a expressão fare da solo — literalmente, “fazer sozinho”. Mais do que um incentivo à independência, a expressão reflete uma confiança na capacidade da criança de aprender por meio de suas próprias tentativas, descobertas e pequenos desafios cotidianos.

No contexto brasileiro, essa perspectiva também encontra respaldo na Base Nacional Comum Curricular (BNCC). O documento estabelece que, na educação infantil, as crianças aprendem, fundamentalmente, por meio das interações e das brincadeiras. Entre os direitos de aprendizagem previstos estão participar, explorar, expressar e conhecer-se, o que implica oferecer situações em que a criança possa tomar decisões simples, experimentar diferentes formas de agir e desenvolver confiança em suas próprias capacidades.

O estímulo à autonomia não requer atividades complexas. Frequentemente, o principal desafio está em oferecer tempo e condições para que a criança realize determinadas ações por si mesma. É importante que os adultos tenham paciência com os processos da criança e incentivem a aprendizagem, respondendo positivamente às suas tentativas. Quando o esforço é valorizado, a criança tende a desenvolver uma relação positiva com o aprender. Por outro lado, críticas excessivas, comparações ou correções constantes podem gerar insegurança e receio de experimentar, limitando a iniciativa e a disposição para enfrentar novos desafios.

A primeira infância é o momento no qual a criança começa a construir a percepção de si mesma como sujeito capaz de agir, aprender e participar do mundo, assim, o olhar confiante do adulto e oportunidades concretas de ação são essenciais. A escola propõe experiências pedagógicas e orienta práticas educativas, mas é no cotidiano familiar que essas competências se consolidam. A autonomia é desenvolvida, gradualmente, nas pequenas experiências do cotidiano que permitem à criança descobrir suas próprias possibilidades de ação. É nesse percurso que ela aprende, passo a passo, a atuar com segurança no mundo que a cerca.

Por Patrícia Nigi – Coordenadora da Scuola Elementare (1º e 2º anos) da Fundação Torino