Desafios da escrita em tempos de inteligência artificial foi tema do Divinas Conversas
20 de março de 2026
Em tempos marcados por algoritmos que escrevem, reescrevem e imitam estilos com velocidade e requinte, refletir sobre o lugar da escrita como expressão humana se torna não apenas atual, mas urgente. É a partir dessa provocação que a Fundação Torino realizou a primeira edição de 2026 do Divinas Conversas, que propôs um encontro para pensar os desafios da escrita criativa na era da inteligência artificial. O evento aconteceu no dia 19 de março e contou com a participação do escritor e jornalista Sérgio Rodrigues, autor do livro “Escrever é humano – Como dar vida à sua escrita em tempo de robôs”, publicado pela Companhia das Letras.
O evento lançou luz sobre a escrita como um trabalho profundamente humano, que mobiliza não apenas a inteligência, mas também a intuição, o desejo e a experiência de vida. A partir da percepção das limitações da escrita automatizada, foram debatidos os desafios técnicos do fazer literário e das implicações éticas, políticas e íntimas do ato de escrever. O encontro convidou o público a pensar a literatura como um percurso em constante construção, com atenção, escuta e compromisso com a dimensão humana da escrita.
Sérgio destacou que, por mais convidativo que seja o uso da inteligência artificial, a escrita criativa prestigia a produção de textos autorais, com alma e essência. “Escrever dá trabalho, e é muito grande a tentação de pegar o atalho oferecido pela IA. No caso de tarefas textuais mais burocráticas, isso pode ser útil, mas para escrever criativamente não serve. Ou você escreve suas próprias palavras ou não é mais o autor, simples assim”, pontua.
Além disso, Sérgio reforçou a importância do trabalho humano na produção de textos e alerta para os perigos de automatizar o processo. “Nunca percam a capacidade de escrever seus próprios textos, palavra por palavra, nem a de ler com seus próprios olhos, linha por linha. Se acharem boa ideia usar prompts e ler resumos feitos pela IA, vão em frente. Mas cuidado com a neuroplasticidade, com a capacidade que tem o cérebro humano de esquecer as conexões que não usa mais”, defende.
Mineiro de Muriaé e radicado no Rio de Janeiro, Sérgio Rodrigues é escritor e jornalista. É autor dos livros de ficção “O drible” (2013) – livro do ano no prêmio Portugal Telecom, atual Oceanos –, e “A vida futura” (2022), finalista do Jabuti. Na não ficção, é autor de “Viva a língua brasileira!” (2016) e organizador da antologia “Cartas brasileiras” (2017). Tem títulos publicados na França, na Espanha, em Portugal e nos EUA. Desde 2016, é colunista semanal sobre língua e linguagem do jornal Folha de S. Paulo.

