Pausa: uma atitude necessária para o tempo presente
8 de abril de 2026
Vivemos tempos de urgência. As horas nos escapam, os dias atropelam uns aos outros e, não raro, a sensação é a de que precisamos correr para não ficar para trás. Para as crianças e adolescentes de hoje, a rotina não tem sido diferente, também eles se veem com agendas superlotadas de atividades escolares, esportivas, artísticas e ou programas de recreação livre, que se transformaram em eventos imperdíveis. Estamos presenciando um momento de exaustão coletiva, da performance muitas vezes sem propósito, sem paixão e sem consciência. Na contramão dessa corrida desordenada pela produtividade, propor uma pausa parece, à primeira vista, um gesto contraintuitivo. Mas é exatamente o que decidimos fazer.
Ao celebrar os 50 anos da Fundação Torino, optamos por trilhar um caminho inverso ao da pressa, da inconsciência e do automatismo. Propusemos uma pausa ativa, consciente, vital. Uma pausa que nos convidasse a olhar para dentro e para fora, para o ontem e para o amanhã. Uma pausa que costura passado, presente e futuro com a delicadeza de quem entende que o tempo, mais do que um ponteiro rebelde, que corre sem nosso controle, é uma experiência que merece ser vivida com presença de espírito, com consciência e alma.
Escolhemos pausar para escutar. Escutar a história que nos trouxe até aqui e que foi construída com coragem, com sonhos e com a nobre missão de educar para o mundo. Escutar as vozes que hoje habitam nossos espaços: alunos, professores, famílias e colaboradores. E escutar, sobretudo, os silêncios — aqueles que abrem espaço para novas perguntas, novas possibilidades, novas formas de ser e estar no mundo. A pausa à qual nos propusemos é ética e estética. É ato pedagógico. É manifestação política e poética. O que pode emergir quando paramos para sentir? Que futuros somos capazes de imaginar quando nos permitimos desacelerar?
Inspirados pela artista educadora Stela Barbieri e pela mostra “Pausa para o devir”, trouxemos a Pausa para a escola, com o propósito da reflexão sobre o tempo, sobre os ninhos que habitamos, sobre o silêncio, sobre o nosso barulho interno. Trabalhando em oficinas de arte, as crianças puderam se expressar com palavras, gestos e muita tinta. Adolescentes e jovens usaram fragmentos de galhos e folhas na construção de seus ninhos, externalizando seu ambiente interno. Pausar é curar, é cuidar, é aprendizado que também se constrói na escola.
Acreditamos que a educação não é uma linha reta. Ela pulsa, respira, se reinventa. E a pausa, nesse contexto, é ponte e não ponto final. É tempo de escuta, mas também de reinvenção. É o intervalo entre os compassos, que permite à música ganhar forma e sentido. Como nos ensinou Rubem Alves, educar é provocar o outro a soar a própria música. Mas, para que isso aconteça, é preciso haver tempo e lastro.
Celebrar meio século de existência não é apenas revisitar o passado. É comprometer-se com o futuro. Um futuro que, acreditamos, será sem fronteiras, sejam elas geográficas, culturais ou emocionais. Um futuro que exige mais humanidade, mais sensibilidade, mais presença.
A pausa que escolhemos fazer é, portanto, um gesto de resistência, rebeldia e de esperança. É um manifesto pela educação que transforma, que toca, que permanece além do tempo. É a forma que encontramos de honrar nossa trajetória e reafirmar nosso compromisso com uma formação que, mais do que conteúdos, cultiva seres completos e presentes nesse tempo que corre tão rápido.
Que saibamos, juntos, pausar. Para lembrar quem somos. Para imaginar quem queremos ser. Para continuar construindo, com afeto e coragem, os próximos 50 anos da nossa história.
Por Márcia Naves, Diretora-geral da Fundação Torino

